Cultour

Visitas acompanhadas por arquitectos a obras de arquitectura

Menos é Mais: Cristina Guedes e Francisco Vieira de Campos

Menos é Mais: Cristina Guedes e Francisco Vieira de Campos
21-Maio-2005
Na segunda visita aberta ao público, a Cultour deu a conhecer, no Porto, três obras de uma nova geração de arquitetos: Cristina Guedes e Francisco Vieira Campos. A visita teve lugar no dia 21 de Maio de 2005 e contou com a participação de cerca de 60 pessoas, entre estudantes de arquitetura, arquitetos e curiosos. O ponto de encontro escolhido foi a Faculdade de Belas-Artes do Porto, local onde os arquitetos edificaram a primeira obra da visita, as oficinas da Faculdade de Belas-Artes do Porto. Os participantes deixaram os carros no local e, o percurso até à segunda obra, o ‘Bar do Cálem’, fez-se a pé e pelo elevador dos Guindais. O circuito continuou a pé, terminando no ‘Café do Cais’, onde foi servido um ‘Porto de Honra’.
Para o percurso em questão, Cristina Guedes e Francisco Vieira Campos escolheram mostrar as suas obras mais conhecidas e (supostamente) efémeras, já que foram projectadas para um tempo de vida limitado a cinco anos. 
 
As oficinas das Belas-Artes
 
As oficinas criadas por Cristina Guedes e Francisco Vieira Campos, em 1996, encontram-se situadas nos jardins da Faculdade de Belas-Artes do Porto. Desde o início, o projecto pensado para estas oficinas assentava na efemeridade das mesmas, já que seriam destruídas aquando do início da construção do edifício para a nova faculdade. O objectivo inicial era substituir o pavilhão oficinal, que assentava num ringue de patinagem. Mas, como tal não aconteceu e o edifício contínua activo, o ‘mau envelhecimento da obra’ é notório. 
Segundo Cristina Guedes e Francisco Vieira Campos, a altura do edifício foi pensada em função das três árvores centenárias existentes no local, que oferecem uma perspectiva excelente das suas copas, quando vistas do interior.
Um dos volumes onde se encontram as oficinas é revestido por uma chapa ondulada e assenta numa estrutura metálica. O outro tem uma estrutura em madeira, com dois pisos, onde estão os sanitários e uma sala com isolamento acústico, pensado para os alunos poderem desenhar sem o barulho próprio às máquinas da oficina. Os autores consideram esta obra ‘um trabalho sobre proporção entre o todo e a parte, tratando lógicas modulares e repetitivas, assim como o volume da ligação, já que os corpos de ligação são fundamentais nesta obra’.  
Neste projecto, o grande desafio dos arquitetos foi eliminar a massa existente, tentando ‘tirar partido do carácter abstracto do próprio edifício’. Devido à construção feita em betão, para Cristina e Francisco a obra é ‘bastante encerrada por fora’.  
 
Bar do Cálem
 
A segunda obra visitada foi o ‘Bar do Cálem’, onde actualmente funciona o restaurante ‘D. Tonho’. Criado entre 1999 e 2002, o edifício faz parte de três equipamentos dispostos paralelamente à margem do rio Douro e foi pensado com base na ideia de mobilidade. 
Constituído por dois volumes distintos e articulado por uma manga flexível, a zona das mesas situa-se numa caixa de estrutura metálica, com duas faces totalmente envidraçadas. Os serviços são incorporados numa outra estrutura, em alumínio, inspirada na construção de objectos móveis, à semelhança das roulottes. No interior, a superfície espelhada da fachada funciona como um estímulo de luz, potenciando atmosferas diferenciadas.   
À semelhança do que acontece cada vez que aceitam um desafio novo, para Cristina e Francisco os projectos nas margens do rio Douro implicaram uma forte vertente de investigação. O rio, que tinha deixado de ser funcional para assumir um carácter lúdico, constituía um novo desafio arquitetónico. Construir nas margens, à semelhança de tantas outras situações, implicava a resolução de problemas. O grande desafio era ‘a necessidade de existir uma lógica entre os elementos precários e uma arquitetura efémera, transformando o que poderia ser uma contrariedade num desafio’.
Em Vila Nova de Gaia, os arquitetos tiveram de aprender a ‘trabalhar nas margens’, com todos os aspectos envolventes, tentando retirar uma lógica de fenómenos como as roulottes e as barracas existentes no local, já que eram realidades a ter em conta.
 
Café do Cais
 
A terceira e última obra a visitar foi o ‘Café do Cais’, situado na ribeira do Porto e datado de 1994. Assente numa plataforma pré-fabricada, o edifício solta-se do pavimento, delimitando assim a sua intervenção. O pavilhão, em vidro e ferro, apresenta duas caixas de ardósia a norte, onde se encontram os serviços de bar. Na opinião dos autores, os efeitos do vidro foram bem explorados, pois permitiram insinuar a extensão do edifício, através das transparências e reflexos. A imposição do mesmo numa região com forte componente histórico tornou-se, assim, mais suave. 
Neste projecto, o maior desafio surgiu associado a uma enorme área destinada a funcionar como esplanada. ‘Queríamos evitar os guarda-sóis com publicidade, que poderiam descaracterizar o espaço, mas não tínhamos espaço para armazenar as estruturas’. A alternativa à solução tradicional surgiu das lógicas construtivas navais, que Francisco domina, graças à sua experiência como velejador. A solução passou pela criação de toldos facilmente recolhidos ou estendidos, mediante a exposição solar, sem a ocupação de espaço. 
De referir ainda que, para a concretização deste projecto, todos os pormenores foram alvo de um estudo intenso, nomeadamente a luz, já que a transparência, opacidade, invisibilidade e o reflexo são aspectos muito trabalhados por ambos.   
 
Os arquitetos
 
Com várias obras particulares no currículo, Cristina Guedes e Francisco Vieira Campos acumulam o exercício da arquitetura com a docência e receberam já vários prémios. Sócios, adoptaram o lema ‘Less is More’, do falecido arquiteto Mies Van Der Rohe, para darem nome ao gabinete que partilham: ‘Menos é Mais’. 
Convictos de não quererem ser rotulados com um movimento em particular, encaram cada projecto como um novo desafio, sem se preocuparem com projectos de autoria. Com uma dose de cerca de 99% de transpiração e 1% de inspiração, é nestes momentos que procuram a alma de cada projecto. Resolver problemas e dar resposta a soluções imediatas é a prioridade e reconhecem que a arquitetura ‘é um projecto com muitos autores, onde os engenheiros, construtores, entre muitos outros, também marcam presença’. Gostam de criar as próprias regras e ultrapassar os limites criados, embora com a ‘consciência do viável’. 
Consideram as suas obras ‘muito modelares, com firmes apostas em aspectos como a métrica, a relação do todo com a parte, a proporção, a transparência e opacidade’. Como arquitetos, assumem que as obras nas margens foram experiências importantes, que os obrigaram a explorar outros campos disciplinares, para além da arquitetura, já que foram obrigados a pensar a construção de uma forma mais efémera, mais próxima do design. Ambos consideram que o domínio sobre os novos materiais, nomeadamente a aplicação dos mesmos, se impõe como o grande desafio. Nesta nova era, inspiram-se cada vez mais em materiais sintéticos usados em aviões e carros, com compósitos diferentes dos habitualmente utilizados na arquitetura. 
 
Cristina e Francisco sobre a Cultour…
 
‘A ideia da Cultour agradou-nos muito, porque a arquitetura precisa de ser divulgada. Muitas vezes somos contactados, sobretudo por grupos estrangeiros, que nos pedem visitas às nossas obras, que acabamos por fazer informalmente. Mas não somos os únicos, existem muitos arquitetos a fazerem o mesmo. Conseguiram captar o interesse que existe pelo turismo cultural e pela arquitetura, o que consideramos ter sido bastante inteligente. Parabéns! ‘